Reflexões sobre o ensino/aprendizagem dança
por fernanda bevilaqua
A mim parece que a palavra DANÇA comporta uma infinidade de imagens, representações, idéias e significados. Agora mesmo, enquanto você lê, se fechar os olhos por alguns instantes e pensar “Dança” sem um contexto específico, provavelmente vislumbrará uma experiência única, porque vivenciada a partir de sua perspectiva individual.
Faço este comentário inicial para contextualizar o que proponho compartilhar em texto, uma reflexão pessoal sobre o ensino/aprendizagem dentro de uma escola de dança que oferece cursos de Balé Clássico, Jazz, Sapateado, Dança Moderna, Dança Contemporânea e Dança Educativa para crianças a partir de 3 anos de idade.
Quando penso em escola de dança, imagino ser necessário direcionar a atenção e o foco para algumas especificidades que só a dança pode oferecer enquanto linguagem artística. Quatro décadas de vivência e dedicação a esta atividade me trouxe essa questão. No contexto em que me vejo, como educadora e artista considero , a dança aqui apenas como arte e o seu ensino/aprendizado como Arte-Educação.
Quais deveriam ser então os atributos de uma escola que tem uma visão de DANÇA como ARTE? Certamente, a consistente formação artística de sua equipe está em primeiro plano. O que implica em constante desenvolvimento de complexas e importantes competências:
1) Uma ampla e aprofundada experiência do(a) professor(a) como artista, como arte educador(a) e como praticante conhecedor das técnicas de dança que se propõe a ensinar;
2) Reconhecer que a dança enquanto arte implica no ensino da técnica, contanto que tenha como foco, o trabalho da consciência corporal e o domínio do movimento. Isso exige um conhecimento do corpo como unidade, incluindo sua estrutura óssea, muscular e articular, bem como todos os aspectos da motricidade e suas conexões com os sistemas cognitivos. Exige que o professor não seja mero instrutor de passos e exercícios técnicos, mas um estudioso curioso, estudante eterno do corpo. Exige ainda e, sobretudo, paciência, pois cada corpo é um universo diferente e único;
3) Olhar com reverência e tolerância para a diversidade, o que também pressupõe paciência e empatia para compreender os limites, potencialidades e diferentes tempos de cada estudante. Esse olhar é um aspecto especial do professor (artista e arte-educador);
4) Ensinar o que se propõe, com a máxima habilidade específica, buscando estabelecer conexões múltiplas com as demais áreas artísticas, sejam elas visuais, musicais, cênicas, literárias ou cinematográficas;
5) Entender o ato criativo como um requisito básico das aulas, indissociável dos processos de preparação de conteúdo, escolha de repertório, condução de exercícios, criação coreográfica, ensaios e apresentação pública. Sempre o foco principal deve estar no estímulo ao desenvolvimento do potencial criativo dos estudantes;
6) Ter propostas com abordagem metodológica consistente, fundamentada e nítida, sensível e aberta a possíveis mudanças, tendo em vista que tudo é mutável e a arte, o corpo, os espaços, os tempos e as técnicas se transformam. Inovar tem como pré-requisitos a reflexão crítica sistemática, o estudo contínuo e a flexibilidade por parte dos profissionais da equipe;
7) Evidenciar o processo da aprendizagem como fator mais importante, sem limitar-se à exposição de resultados imediatos e sem sobre valorizar impressões superficiais sobre a “evolução” dos estudantes. A dança enquanto movimento no espaço/tempo, lida com aspectos sensoriais muito delicados, imateriais, emotivos, e isso não se pode quantificar, mensurar em indicadores de desempenho. Muitas vezes os estímulos sensoriais de uma boa aula de dança serão expressos em pequenos detalhes do cotidiano, em belas sutilezas do dia a dia, ou ainda após muitos anos depois de findada a “aula” de dança. Não são poucas as ocasiões em que de modo inesperado, temos um “insight” que nos remonta a uma experiência passada, longínqua de nossa existência, que fez parte de nosso ensino/aprendizagem. Aquele “toque” do professor, aquele exercício criativo, uma chamada à disciplina poderá ser muito útil nos confrontos com a realidade, que inexoravelmente cada um(a) de nós terá que enfrentar;
8) Ter como centro de seus estudos e reflexões, o corpo e a cultura. Compreendida a Cultura também como saúde, como relação familiar, como viver nesta cidade. Valorizar as diversidades, respeitar os costumes distintos dos nossos, não determinar nossas atitudes conforme as condições físicas ou sociais de cada estudante. Seria cruel olhar para o corpo de um estudante, como se um fossem todos. Não podemos cair nas armadilhas perversas das comparações. Seria cruel olhar para o corpo na dança como se buscássemos uma miragem, a materialização estética de um ideal de beleza inatingível cultuado pelas editorias da televisão e revistas de moda. Se assim o fizéssemos, seríamos cúmplices de uma conduta pedagógica equivocada, inspirada na ditadura do corpo perfeito, da magreza extrema e da exaustão física. Seríamos co-responsáveis por efeitos desastrosos na auto-estima e na vida futura de pessoas talentosas e criativas;
9) Oferecer formação e informação a todos que procuram a dança como atividade em suas vidas, deixando transparentes os objetivos da escola que em nosso caso são:
- Formar cidadãos/artistas autônomos e criativos e(ou) quando for o caso e se, de livre e espontânea vontade desejarem e se dispuserem à máxima dedicação de seus tempos: profissionais aptos para o exercício da profissão: bailarinos, sapateadores, dançarinos, performers ou simplesmente: Artistas.
Muitas são as motivações que levam à procura por uma escola de dança; a busca da postura correta, o lazer, o encontro social, a vontade de emagrecer, a necessidade de superar limites físicos, emocionais ou comportamentais, a expectativa de se tornar mais delicado(a), flexível, elegante... Compreendo todas, mas a partir do momento que alguém se propõe a acreditar em nosso trabalho, preciso deixar claro o que Uai Q Dança pretende enquanto escola e temos um especial empenho em perseverar : Temos o desafio de tentar demonstrar a nossos estudantes e familiares, que o ensino/aprendizado da dança e suas técnicas numa escola, dizem respeito em primeiro lugar à arte e essa formação não se mede com fita métrica e nem com deduções e conclusões urgentes.
Na arte nada é pra já! Na arte é sempre difícil provar, pois não há prova palpável, não se pega com as mãos. Na arte da dança, tudo é um processo de descobertas das poéticas do corpo!
“É difícil provar que em abril, as manhãs recebem com mais ternura os passarinhos...”
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